Digo a você, meu filho,
nesta carta destinada a ser aberta em sua velhice
e pronto para compreender,
algo que pais dizem a filhos,
geração após geração,
que está escrito para cada um de nós, antes de nascer.
Não são palavras alegres ou felizes,
são simples verdades que ultrapassam cada um em sua existência.
Assim deve ser.
O que posso dizer a você, meu filho,
que não tenha sido dito antes por outro pai a mim?
Bem pouco, ou mesmo nada, poderia dizer
se me fosse dado o encargo de não repetir
o que me foi de alguma forma transmitido.
Você, algum dia, também saberá
que toda história tem antecedente
em experiências que outra pessoa,
muito antes, igualmente viveu,
que tudo que se possa transmitir é
repetição adaptada a uma nova situação.
Lembra de alguma canção que entoei
para você e suas irmãs
quando ainda eram crianças sem dar os primeiros passos?
Foram as melhores canções que pude criar para vocês,
como aquelas que ouvi e guardo sem memória,
uma saudade sem explicação.
Você, tanto quanto eu,
também cantará para seus filhos,
quando chegar a hora,
e eles não terão disso nenhuma memória,
apenas um registro de sentimento sem explicação.
Cada verso sussurrado tem presença nesta carta
que espero que você leia apenas ao envelhecer.
Ela foi escrita em letras de sangue e carne,
para ser íntima de seu coração,
para ficar alinhavada em seu caráter,
sem dissipação.
Os anos despedirão a juventude,
a boa forma, a saúde,
mas não destruirão a emoção
de saber que no filho está a continuação,
de que o filho é o pai em atualização.
Escreva, meu filho, uma carta oportuna para o seu,
e costure-a ao coração
para não se afastar nunca do peito
e para que na boca do meu neto seja oração.
Recite versos de esperança repetidamente,
sem cansar nem se preocupar
que, com poucos meses, seu filho não tenha compreensão;
ele guardará tudo como emoção
e sentirá uma saudade indefinida
e a transmitirá à próxima geração.