Conceito e ideologia

Um tema socrático, como a igualdade, pode oferecer oportunidade para indagações diversas, até mesmo se a igualdade existe, se é constante, se tem duração no tempo e no espaço, se é relativa a algum referencial, se é útil, se essa utilidade, acaso reconhecida, pode ser relativizada ou se é universal e deve ser reconhecida em toda circunstância. O mesmo pode ser pensado no que concerne ao bem e ao mal, ao belo e ao feio, ao desigual e suas aplicações às relações sociais. Afinal, dizemos e não contestamos que todos somos iguais perante a lei, que somos iguais em condição e dignidade humana, que é crime suprimir a vida ou o patrimônio alheio, que as vedações legais existem para preservar o bem, prevenir ou remover o mal e restaurar o bem.

No entanto, haverá uma fórmula geral, abstrata e sempre observável do bem ou do mal, do belo (como sinônimo do justo) e do feio (como sinônimo do injusto)? O exemplo do pagamento de uma dívida é interessante: devo pagar uma dívida a um amigo que sei que usará do dinheiro para contratar um matador, que será encarregado da morte de um desafeto, ou devo postergar o pagamento, arcando com os consectários da mora, evitando assim que o amigo, agindo impulsivamente, contrate um matador? O destino que meu credor dará ao pagamento que farei me importa de alguma maneira? O exemplo do concurso público também é relevante: se somos todos iguais, por qual razão devemos provar superioridade em talento à coletividade para ser contratado para fazer algo que todos os demais poderiam fazer, ou será que a igualdade é apenas ideologia e a desigualdade, uma realidade a que uma certa civilidade foge por razões de conveniência a uma elite beneficiária que não se faz ostensiva?

A igualdade, a liberdade e o bem e seus contrários (desigualdade, confinamento e o mal) são convenções de interesse e convencimento para funcionamento da sociedade tal como a temos neste momento do que proclamamos ser civilização? Em uma civilização voltada a causas e efeitos, o conceito e a intenção têm consequências específicas desejadas. Assim ocorre que a igualdade, seu conceito, aplicação, intenção e objetivos colimados condicionam o resultado esperado e geram repugnância ao que seja diferente do esperado, a ponto de acrescentar ideologia para justificar fracassos ou desqualificar esse resultado desconforme ao planejado; raramente a pessoa imputa a si mesma um efeito desconforme, ainda quando o conceito esteja bem estabelecido e seja consagrado na prática.

O elemento invisível na relação social (ideologia) condiciona a aceitação do resultado. Fica a pergunta: o que é causa de igualdade pode ser causa de desigualdade? Se igualdade for ideologia, sim; se igualdade tiver uma essência, não poderá produzir resultado diferente de si. Mas a humanidade nunca produziu igualdade que não fosse relativa a um parâmetro que não fosse também fonte de desigualdade, como se vê entre senhores e escravos, empregadores e empregados, pais e filhos, mestres e discípulos, Estado e cidadão, o bem e o mal, inseminador e gestante. Na humanidade não há perfeição, algo que a noção de igualdade exige, uma vez que a desigualdade é signo de imperfeição e não pode conviver onde há igualdade. O que destoa não é da mesma essência e não tem lugar onde há igualdade.

Humanamente, igualdade é conceito político, que reduz uma realidade a mero aspecto do que ela é, pois do contrário seria forçoso reconhecer apenas desigualdade humana, ainda naqueles que pregaram igualdade, pois sua pregação os tornou desiguais em relação aos destinatários de sua mensagem. Ainda assim, conceitos como igualdade e liberdade, políticos como são, merecem atenção e incessante busca, sem o que haverá apenas violência e barbárie.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *