Metáfora da luz e da escuridão

O que há na metáfora da luz e da escuridão é a vontade de dizer o conforto e o desconforto do conhecimento. Afinal, quanto mais aumenta o conhecimento mais aumenta a consciência da própria ignorância. Vale dizer: o conhecimento provoca naquele que o procura uma espécie de desespero, o desespero de se saber tão ignorante e, por consequência, quantos e quão graves erros cometidos. O sacrifício do aprendizado é isto: o compromisso ético de demolir erros passados e sobre seus escombros construir algum acerto, mesmo desconfiado de que o futuro possa ser portador de novas verdades que colocarão em xeque o que pensamos hoje ser acerto, obrigando-nos a nova demolição para nova edificação. O saber é sempre provisório e finito, por isso desperta tanta tristeza e impõe tanto sacrifício: a ignorância é um bálsamo que faz supor eternos os erros que consideramos acertos e assim nos faz contentes em permanecer ignorantes. Queria um modo menos agressivo de dizer essas coisas, mas não consigo, não conheço recursos linguísticos para suavizar a consciência da ignorância e dos males que provoca. A metáfora da luz e da escuridão serve a esse propósito, mas ela também é agressiva. “Deus me ilumine” ou “O espírito seja iluminado” são expressões que agradam religiosos, mas exasperam ateus e descrentes. Nesse mundo polarizado, como não ofender a ninguém? A luz ofende os olhos de quem aprecia a escuridão, como o conhecimento ofende o obtuso convicto da beleza ou estética de sua própria ignorância!

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