Divido cores e texturas,
sabores da suavidade,
fibras que submeto ao cardo,
olhos que testemunham,
as transformações do corpo.
Digo que a fruta verde é travosa,
que mãos exigidas são calosas,
que o olhar muda conforme a experiência.
Nada faço que não seja para mim,
mas digo que a natureza proporciona
o que o tato e o canto afinam
ao toque e aos ouvidos.
Meu filho cresce, logo anda,
fala, pega e derruba coisas,
se veste e escova os dentes,
frequenta escola,
trabalha e vai embora.
Voltará com a mulher grávida
de uma criança que será outra mulher
quando eu, talvez, já não esteja por aqui.
Verei netos?
É pergunta que me faço e não respondo.
Chamo de tempo a isso que passa e me faz velho,
mas sou apenas eu passando
na vida do meu filho,
aos olhos da mulher que amei,
olhos que já se fecharam
enquanto abertos mantive os meus.
Hoje, compreendo a vida em fragmentos
e me perco dizendo que são momentos
que embaralho quando os conto
sem dizer nem perceber que fugiram
no que não existe, no tempo.