Da Alma é um livro interessante. Nele, Aristóteles diz, dentre tantas coisas, que o olho enxerga a cor porque a cor já existe em potência no olho e será tornada em ato, atualizada, quando se depara com algo provido de cor. É a teoria da potência e do ato; cada alma tem sua potência e seu ato, o que significa, nos vegetais, nutrição e reprodução, nos animais, algo além da nutrição e da reprodução, nos humanos, algo além dos animais em geral e a inteligência. Assumindo o argumento, é possível dizer que que enxergo violência em ato (violência policial dispersando manifestação popular, por exemplo) somente se houver violência em mim, em potência, que pode se transformar em ato (se eu me envolver no conflito entre manifestantes e policiais, por exemplo, defendendo um dos lados e atacando fisicamente o outro); se não houvesse violência em potência em mim, a cena violenta não seria percebida, ou seria percebida como algo diverso, uma situação de desorganização social, por exemplo, algo próximo mas diferente da violência. A teoria aristotélica tem a virtude incômoda de dizer a mim que somente compreendo aquilo que já existe em mim e que essa existência em potência será um conceito ou uma experiência armazenada em minha consciência ou no subconsciente. De tudo restará a conclusão inquietante de que toda violência existente em potência em mim poderá ser por mim transformada em ato.

Pode ser… mas e o novo?