O tempo tem direções que cada povo, cada indivíduo, cada grupo escolhe. A fixidez auxilia quem no tempo navega sem notar alterações ou repetições; nada muda, tudo é o mesmo pela eternidade, como uma pedra suficientemente grande para não se mover sob forças da natureza ou como uma montanha plantada para a eternidade na paisagem; na fixidez, as alterações são tão sutis que o tempo da vida humana não as percebe e qualquer tentativa contrária à manutenção das coisas como se encontram é fortemente reprimida como ofensa ao sagrado e ao natural de toda vida.
A repetição implica alguma dinâmica em círculos, tudo retornando ao que já foi, tudo se repetindo e mudanças sendo apenas aparências que não alteram a síntese ou essência limitada e replicativa das coisas, destinadas que são à recorrência eterna; uma invariante jamais rompida e nunca ameaçada por qualquer noção de progresso, pois o progresso nada mais seria do que a repetição sob nova forma a enganar os sentidos do observador desatento. Não se reage ao progresso, pois ele nada mais representa do que uma ilusão não identificada pelo observador.
Uma terceira direção o tempo tem vocação ao infinito e é chamada de progresso; é uma direção contrária à fixidez e entende o retorno, a disposição circular do tempo, como ilusão ou fantasia, posto que as condições materiais de reprodução de atos, fatos, situações e produtos não são as mesmas e os resultados, ainda que semelhantes, serão forçosamente diversos; pode ocorrer alguma coincidência final de resultados por vias diversas, o que será mera curiosidade, mas não será repetição, já que o caminho será outro; a semelhança de resultado não significa identidade de ato, fato, situação ou produto, nem de aplicação; se não for original, será cópia, e a pretensão autoral será plágio; assume-se a posição de entender a ocorrência de uma eterna renovação, a cada momento e lugar.
As religiões servem-se das duas primeiras direções do tempo, pois o sagrado e o revelado são eternos, enquanto a ciência e a tecnologia servem-se exclusivamente da terceira direção, posto que nada há de sagrado ou de revelado, tudo é mutável, seja na materialidade das coisas como na compreensão e intelecção dessas mesmas coisas, conforme o estágio de desenvolvimento de um povo, indivíduo ou grupo.
O caminho a trilhar é a indagação fundamental. Há conforto na fixidez e na repetição; há desafios na eterna renovação. Escolho o meu caminho, algo que somente a mim compete, e devo ser feliz com minha escolha, nada imputando a ninguém, ou refazê-la até ser efetivamente feliz.
