Pronunciamento feito no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, em 7 de fevereiro de 2026
Abertura
De todos os amigos que angariei nesta vida, tenho hoje a missão de dizer sobre sentimentos e pensamentos que me uniram a Daniel Antunes Júnior, homem de razão e de fé, que não fez de uma a exclusão de outra, mas concebeu a convivência do que o Iluminismo separou.
Uma síntese de sua racionalidade poderia ser assim formulada: – Aquilo em que acredito não é aquilo que conheço. Aquilo em que acredito aparece para mim como se verdade, efetivamente. No entanto, nem assim posso dizer que conheço aquilo em que acredito. Minhas crenças devem ser plausíveis para mim; se assim não fosse, não teria motivos para acreditar e abandonaria a crença. De igual forma ocorre com a religião, que prevalece enquanto creio nos seus fundamentos e desaparece logo que neles não mais se confia. Conheço apenas aquilo que descrevo por seus componentes e funções, mas apenas creio naquilo que, parecendo verossímil, não consigo descrever por seus componentes e funções. Creio em Deus, mas sou incapaz de dizer do que é feito ou a função do que possa ser Seu componente.
Das amizades possíveis
Das amizades possíveis, há as vazias, as de proveito e as virtuosas. Amizades vazias são fundadas nos hábitos de proximidade e, por vezes, de intoxicação. Não são verdadeiras amizades, podem ser rompidas a qualquer momento, são enganosas como tudo que, sendo passageiro, é sem proveito para a posteridade; esse tipo de amizade não dignifica nem distingue pelo que é característico do ser humano: o intelecto e a comunicação, com as sofisticações das ideias voltadas à metafísica, à transcendência e a concepções que alteram as possibilidades do mundo para o indivíduo e a coletividade. O desfazimento desse tipo de amizade é simples, sem repercussão e, por vezes, benéfico a quem assim procede, se o faz para permitir a retomada de uma vida realizadora.
As amizades de proveito igualmente não são verdadeiras e se esgotam com a realização ou frustração do interesse que as fundou. Voltam-se ao imediato, não têm lastro em um passado comum que as sedimente; frequentemente, são relações sedutoras, pois visam construir onde não há alicerce. O fim desse tipo de amizade é benéfico a quem dela participa como elemento explorado por outro à busca de proveito próprio; apenas casualmente o benefício pessoal procurado nesse tipo de amizade resultará em proveito ao explorado ou ao público.
Virtuosas são as amizades fundadas na identidade de qualidades benéficas e favorecedoras não apenas dos envolvidos, mas da coletividade. Esse tipo de amizade é verdadeiro, pode durar uma vida inteira, constrói obras perenes e se desfaz com dificuldade e tristeza. São amizades exemplares, ressaltam o que há de melhor na humanidade e contribuem para seu aperfeiçoamento. É amizade rara, por isso escassamente encontrada em uma vida inteira.
Daniel nos dignificou com sua amizade e intelecto, com seu espírito e realizações, com a materialidade de seu sorriso emanando esperança. Há entre nós e ele um laço que não se desfez com a morte, que carregaremos e dignificaremos enquanto vivos estivermos.
Entremeio
O espirito de Daniel em mim causou tantas vezes a impressão da visão trágica do mundo, algo entre Miguel de Unamuno e Carlos Drummond de Andrade, com a crueza humana feita de terra, água, fogo e ar, de fazendas e cidades em um grande mundo descampado e desesperançado de resolver as mais antigas contradições entre potentados e subjugados. Sempre tive a nítida impressão de que meu amigo enxergava mundos e autores em cada pessoa, cada qual sendo autor de obra a ser avaliada ao final de sua existência, seja por contemporâneos como por pósteros, reunindo as contraditórias condições de uno e múltiplo a ser dissecado como mistério.
Vidas Secas e O Quinze foram lidos e experimentados na observação rude da natureza e da humanidade, que sonha com o perdão eterno de suas falhas para ingresso no paraíso merecido post mortem. Não havia nele essa ilusão, mas a justa compreensão de que as circunstâncias ditam um caminho nem sempre coerente entre sentimentos e razão, força e fragilidade, amor pela humanidade. Uma crença do antigo Egito, de que me falou em determinada ocasião, dizia que a sombra integra a pessoa, compõe o indivíduo, e será atacada quando da morte dessa pessoa, se sua vida não houver sido virtuosa. Daniel preservou sua sombra das vicissitudes inerentes aos maus, cuidou de deixar à sua passagem as marcas distintivas de virtudes reconhecidas por todos que se beneficiaram com sua convivência.
A sabedoria grega aconselha que se “Não considere nenhum homem feliz até que ele morra” mas Daniel tinha consigo a compreensão da lição de Romanos 5:7: “Dificilmente morrerá alguém por um justo, embora alguém possa se animar a morrer pelo bom”. Deus é amoroso e reconciliador. Nós, humanos, medimos e pesamos nossas atitudes por conveniências e proveitos, não pelo amor incondicional de Deus, que nos foi dado por Seu filho. Somos apenas capazes de alguma virtude, não mais do que permite nossa impermanência, porém, ainda assim, Deus sempre nos amou e nos ama. Havemos de amar para realizar, conforme o que nos foi proporcionado.
Encerramento
Daniel saiu de sua Espinosa quase mítica, mas sem os recalques de Graciliano Ramos e de Raquel de Queiroz, e ganhou o mundo com sabedoria e grandeza de espírito. Marchou para a iluminação. Nunca perdeu sua ligação com a origem. Manteve a fazenda em sua vida. Um homem entre duas realidades, mas não dividido. Na dualidade, foi uno. Arrisco-me ao estabelecimento de uma fórmula de vida, igualmente produto de razão e de fé, que poderia bem traduzir nosso amigo, para guarda-lo em nossos corações: – Tudo quanto é, somente é por uma receita divina.
Adeus é palavra que digo com sabor de até breve, Daniel, meu amigo.